Lugar ao Som

sábado, agosto 26, 2006

O Trovador do Canto Livre



Quando se fala de "cantores de intervenção" ou de "canto livre", ou então de "baladas", vem logo à tona o nome inesquecível do que terá sido para quase todos o maior, o melhor intérprete de entre eles, José Afonso.
Todavia outros houve que, com a sua arte e persistente coragem, muito contribuíram para uma regeneração da Canção no Portugal do início dos anos 60 e usaram a música e a voz, ou como uma arma ou para a divulgação dos nossos melhores poetas junto do povo inculto que éramos, ou ainda na recolha e no cantar de velhas cantigas populares.
A. C. Oliveira foi, sem dúvida, o 2º maior de todos. Votado a um esquecimento inexplicável, de Adriano pouca gente com menos de 40 anos será capaz de conhecer mais do que o nome e muito vagamente recordará alguma das suas canções.
Trovador de corpo grande enfiado numas calças e camisola, cantando ao vento e às gentes por esse país fora, aqui o recordo, aquele de quem Manuel Alegre em plena Assembleia da República disse aquando da sua morte: "Foi o mais corajoso de todos."

Deus te salve, Rosa (popular Trás-os-Montes/J.Afonso/A.C.Oliveira
Deus te salve, Rosa
linda Sarafina
Tão linda pastora
que fazes aí?
Que fazes aí,

de noite c'o gado?
Mas que quer, Senhor,
nasci pr'a este fado.
De noite c'o gado,

corre grande p'rigo
Quere a menina
venir-se comigo?
Não, não quero, não,

tão alto criado
de meias de seda
sapato delgado.
Sapatos e meias

tudo romperei
por amor da menina
a vida darei.
Vá-se ó magano

Não me cause mais ódio
Que há-dem vir meus amos
Trazer-me o almoço.
Se há-dem vir seus amos
Isso é o que eu gosto
Quero que eles saibam
Que eu falo com gosto.

Adriano Correia de Oliveira

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Adriano Maria Correia Gomes de Oliveira nasceu no Porto, a 9 de Abril de 1942.
Aos 17 anos matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, mas nunca chegou a acabar o curso.
Adriano nasceu e viveu num meio familiar tradicionalista e católico. Com poucos meses de idade foi residir para Avintes, na Quinta de Porcas, onde viveu também os seus últimos dias. Ali fez a instrução primária e, depois, no Porto, o curso dos liceus, no Colégio Almeida Garrett e no Liceu Alexandre Herculano.
Em Avintes iniciou-se no teatro amador e colaborou na fundação da União Académica de Avintes. Iniciou-se também na prática do voleibol - beneficiando dos seus dotes atléticos e da sua altura - e mais tarde, já em Coimbra, foi campeão nacional desta modalidade.Nesta cidade Universitária desenvolveu grande actividade nos organismos estudantis da Academia: cantou e foi solista no Orfeon Académico, fez parte do Grupo Universitário de Danças Regionais e integrou o CITAC (Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra) onde representou várias peças.
Chegado a Coimbra, Adriano Correia de Oliveira cedo se evidenciou na Academia, quer através da sua intervenção cultural e política, quer através da prática desportiva.
A sua primeira ambição musical, com 17 anos de idade e ainda "caloiro", foi a de tocar viola eléctrica no Conjunto Ligeiro da Tuna Académica, do qual faziam parte José Niza, Daniel Proença de Carvalho, Rui Ressurreição, Joaquim Caixeiro e outros. Como José Niza já "ocupava" o lugar de guitarrista, Adriano abandonou a ideia e dedicou-se ao canto, iniciando-se naturalmente pelo Fado de Coimbra, tendo gravado o seu primeiro disco - "Noites de Coimbra" - em 1960.
Nessa altura vivia-se ainda em Coimbra uma das fases mais ricas da canção feita pelos estudantes, dominada pelas vozes de Luis Goes, Fernando Machado Soares, José Afonso e pelas guitarras de António Brojo António Portugal, Jorge Tuna, Jorge Godinho e Eduardo e Ernesto Melo.
Adriano - embora não tendo sido contemporâneo, nos estudos, dos cantores referidos - conviveu com eles, sobretudo com José Afonso e Machado Soares, os quais, embora já fora de Coimbra, continuaram a manter uma ligação muito estreita com a vida académica e a influenciar os cantores estudantes dos anos 60, dos quais Adriano foi companheiro:Barros Madeira, Lacerda e Megre, Sousa Pereira, Vitor Nunes, José Mesquita, José Miguel Baptista, António Bernardino e outros.
A obra completa de Adriano foi editada pela Movieplay Portuguesa e contém os 90 títulos originais que o cantor deixou gravados, todos eles para a Editora Arnaldo Trindade, Lda - Discos Orfeu.
Em 1963, com a gravação de "Trova do vento que passa", Adriano iniciou uma nova fase da sua intervenção musical e política, que veio - tal como José Afonso-, a imprimir à música popular portuguesa uma dimensão ímpar e nova.
Gravou variadíssimos álbuns, cantando poemas dos mais variados autores portugueses e melodias que encantaram e prevaleceram como baluartes da canção de intervenção. No seu repertório aparecem diversas trovas, (esse tipo de música que na Idade Média os aventureiros da cultura, percorrendo a Europa, levavam de terra em terra as melodias de origem, vindas, muitas vezes, não se sabia de onde, mas que era uma forma de dar a outras pessoas as tradições, a cultura, as lendas, os costumes, os romances, o estilo de vida, que, desta forma, eram apresentados nas localidades a que chegavam e, posteriormente, também daqui transportados para outras terras).
Gravações feitas no antigo regime são um testemunho do seu profundo amor à causa da Liberdade, para a qual sempre deu o seu melhor, no sentido de levar mensagens e um pouco de conforto aos companheiros exilados, presos ou que tinham de sufocar as ideias democráticas.
Ao lado de José Afonso, Luís Cília, Manuel Freire, Luísa Bastos, José Jorge Letria, padre Fanhais, José Mário Branco - e outros tantos -, foi um baluarte na defesa da Liberdade e na implementação da chamada "canção de intervenção".
Muito cedo nos deixou, quando estava no auge da sua carreira. Viveu um pouco da música e do seu posto de trabalho na Embaixada de Angola no Porto. Estava ainda a terminar o curso de Direito. A morte, porém, levou-o a 16 de Maio de 1982, com apenas 40 anos, devido a uma doença súbita.
Citando Manuel Alegre, a "voz do Adriano era uma voz alegre e triste. Solidária e solitária, havia nela ternura e mágua, esperança e desesperança, amparo e desamparo, festa e luta. E também saudade e fraternidade. Nenhuma outra voz portuguesa, com excepção da de Amália Rodrigues e José Afonso, está tão carregada desse não sei quê antigo que trazemos no sangue, como o apelo do mar e o amor da terra, como toada e o som do nosso próprio ser, do seu ritmo secreto, da sua música primordial. Voz de Fado e de destino, herança talvez do mouro e do celta que nos habitam, a voz de Adriano tinha também o masculino apelo do rebate e do combate. Era uma voz que precisava de poesia e de que a poesia precisava".


Fontes: Internet

Jorge G. 26.08.2006


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terça-feira, agosto 22, 2006

CANSEIRAS E CANSAÇOS

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"As canseiras desta vida"
Letra e música: José Mário Branco
(baseado em "A mãe" de Bertold Brecht)


As canseiras desta vida
tanta mãe envelhecida
a escovar
a escovar
a jaqueta carcomida
fica um farrapo a brilhar

Cozinheira que se esmera
faz a sopa de miséria
a contar
a contar
os tostões da minha féria
e a panela a protestar

Dás as voltas ao suor
fim do mês é dia 30
e a sexta é depois da quinta
sempre de mal a pior

E cada um se lamenta
que isto assim não pode ser
que esta vida não se aguenta
-o que é que se há-de fazer?

Corta a carne, corta o peixe
não há pão que o preço deixe
a poupar
a poupar
a notinha que se queixa
tão difícil de ganhar

Anda a mãe do passarinho
a acartar o pão pró ninho
a cansar
a cansar
com a lama do caminho
só se sabe lamentar

Dás as voltas ao suor... etc. repete a 1ª quadra

E cada um se lamenta... etc. repete a 2ª quadra

É mentira, é verdade
vai o tempo, vem a idade
a esticar
a esticar
a ilusão de liberdade
pra morrer sem acordar

É na morte ou é na vida
que está a chave escondida
do portão
do portão
deste beco sem saída
-qual será a
solução?

Dás as voltas ao suor...etc. repete a 1ª quadra

E cada um se lamenta...etc. repete a 2ª quadra



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segunda-feira, agosto 21, 2006

Músicas e Músicos (Republ.)




Há cerca de sete meses, numa das buscas sobre vocalistas de Jazz junto dos utilizadores do "Soulseek", apareceu-me um utilizador com cerca de 20000 files, sendo a grande maioria de música de jazz. Percorrendo pacientemente a sua lista, parei frente a um nome, para mim completamente desconhecido, a que o utilizador acrescentava uma palavra - "peerless!" (sem igual!). Claro que a curiosidade logo me levou a solicitar umas quantas canções de um álbum que vinha referido como o seu último espectáculo gravado ao vivo. " Live at Tavern on the Green" foi o meu primeiro contacto com a voz da intérprete, Nancy LaMott. Ouvi e ouvi de novo! Estava lá tudo o que me satisfaz num vocalista de jazz : a afinação, o tom, o timbre vocal próprio, o swing das palavras em harmonia com a música...e, acima de tudo, a alma, o cantar que vem de dentro, que não se fabrica nos estúdios de gravação. Era um espectáculo sem rede, em directo, com apresentação dos temas em conversa de Nancy com o público de um dos mais afamados cabarets norte-americanos. Investiguei sobre a sua vida e obra. Contactei o utilizador que me havia proporcionado conhecer Nancy LaMott, pesquisei na Net, importei alguns dos seus álbuns, ouço-os quando me apetece ouvir a voz dos anjos.

"Here's to you Nancy !" From: Jorge Guedes - Lisbon, Portugal Date: 11 Jan 2006 - Time: 10:18:40 -0800
Comments - "I must tell you I had never heard of you! May be my country is not big enough to deserve your art and your heart! I met you among someone's music files with a special note added to your name:"peerless". Let me tell you now that nobody has ever been so right. Keep on singing my dear!"
Este foi o meu obrigado a LaMott, publicado no Livro de Mensagens do seu site oficial -
http://www.nancylamott.com/

Nasceu em Midland, pequena cidade do Michigan, em 1951, tendo aí passado a infância e parte da adolescência a sonhar com uma grande carreira, enquanto cantava na banda do seu pai. Cerca dos 18 anos foi-lhe diagnosticada a pouco conhecida, mas muito grave, doença de Crohn que a obrigaria a hospitalizações frequentes ao longo da vida.
Apesar da sua situação, sabia que teria de deixar Midland para perseguir o seu sonho, e assim, com 19 anos, ela e o irmão Brett -seu baterista- mudaram-se para San Francisco. Lá, tornou-se desejada nos melhores cabarets, embora a doença a obrigasse a internamentos mais, ou menos, longos e ao recurso à cortisona e a diversos analgésicos prescritos pelos seus médicos.
Ainda assim, os êxitos obtidos levaram-na a ganhar forças para se mudar para New York. Gastando o que ganhava com as pesadas contas dos tratamentos, LaMott nunca teve dinheiro suficiente durante a sua curta vida.
Conhecendo o compositor David Friedman em 1989, este ofereceu-se para lhe produzir os discos, que conduziram a uma maior divulgação do seu talento no seio dos melhores Night Clubs de New York.
Obrigada a uma ileostomia, a cirurgia fez com que, pela primeira vez, se sentisse bem e pudesse comer tudo o que lhe apetecesse. Com esta renovada energia, a sua carreira ganhou um acentuado impulso e no ano e meio subsequente, Miss LaMott cantou por todo o país e chegou a fazer-se escutar em mais de mil rádios americanas.
Foi nesse período que se tornou uma das favoritas dos Clinton, para quem cantou por duas vezes na White House.
Tudo parecia correr melhor quando, em Março de 1995, lhe foi dignosticado um cancro do útero, o que a levou a acelerar o ritmo de vida numa verdadeira corrida contra-relógio. Sujeitando-se a uma terapia hormonal, a cantora soube dois meses depois que a mesma não estava a resultar. Cantou, então, em concertos a favor da Sida e, num deles, conheceu o actor Pete Zapp com o qual viria a casar na última hora da sua existência, num leito de Hospital.
Terminava o sonho da menina de Midland e o mundo era privado de uma grande intérprete musical, de quem Bob Harrington, do "New York Post", disse um dia : "There is no more beautiful musical instrument than the voice of Nancy LaMott" e outros críticos escreveram : "Nancy LaMott is the best cabaret performer since Frank Sinatra"
Faleceu antes de completar 44 anos, "on the verge of accomplishing her dream", à beira do estrelato internacional.
David Friedman, o seu primeiro produtor, prometeu-lhe um dia que levaria a sua voz a todo o mundo. Hoje, continua a lutar para cumprir com o prometido.

P.S. - O álbum "Live at Tavern on the green"(v. foto nesta pág.) foi gravado cerca de duas semanas antes da sua morte.

Vamos ouvir Miss LaMott ! É este o meu conselho musical da semana !

Links visitados e a visitar : http://www.nancylamott.com/ (site oficial) Panpim's Nancy LaMott Fan Clubhttp://www.nancylamottfanclub.com/ Listen To My Heart - The Songs of David Friedman http://www.LISTENTOMYHEARTSITE.com/NEW VOICES II presented by the New Composers Collective http://www.symphonyspace.org/genres/eventPage.php?genreId=1&eventId=472"Trick" (film)Original music by David Friedman http://www.trickmovie.com/Deborah Brevoort,Librettist, King Island Christmashttp://www.deborahbrevoort.com/Colony Records http://www.colonymusic.com/Footlight Records http://www.footlight.com/Cabaret Hotline Online http://www.svhamstra.com/


Nancy LaMott (1951-1995)








Jorge G. 21.08.2006 (republ. de antigo "Os Bigodes do Gato")


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quinta-feira, agosto 17, 2006

O PIANO

Um Bechstein de 1896
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É um instrumento musical de corda percutida. Define-se deste modo porque produz som quando as cordas, esticadas e presas a uma estrutura de madeira ou metal, são tocadas, percutidas, por um batente designado por martelo que as faz vibrar.
O piano é semelhante ao cravo e ao clavicórdio. Os três diferem no mecanismo de produção do som.
Enquanto no cravo as cordas são apenas beliscadas e no clavicórdio são percutidas por martelos que se mantêm em contacto com elas, no piano o martelo ressalta de imediato após o contacto com as cordas, permitindo assim que estas vibrem livremente.

Piano é a abreviatura de pianoforte, palavra que se mantem na Língua italiana para o designar.
A propósito, a invenção do pianoforte é atribuída a um fabricante de cravos de Florença, Bartolomeo Cristofori.
Sabe-se que este, em finais do séc. XVII, inventou um cravo que tocava suavemente, piano, e também fortemente.
Daí a sua actual designação.
O grande passo dado por Cristofori foi o de resolver pela primeira vez o problema mecânico essencial: fazer com que os martelos tocassem nas cordas e se retirassem imediatamente para não abafarem o som produzido.
Datam do 2º decénio do séc. XVIII os pianos mais antigos que ainda existem.
Instrumento fundamental para a música ocidental, especialmente a chamada clássica e o jazz, tem sido usado por inúmeros compositores, muitos dos quais igualmente pianistas, para comporem as suas obras.
Grandes pianistas foram Mozart, Beethoven , Chopin, Lizt e o polaco Władysław Szpilman,de origem judaica, o qual em 1945, pouco depois do fim da guerra escreveu um relato da sua sobrevivência em Varsóvia. O livro foi publicado na Polónia, com o título Śmierć Miasta (Morte de uma Cidade) e foi bastante censurado pelas autoridades comunistas às quais não agradavam as perspectivas de Szpilman sobre a guerra. Foram obviamente vendidos poucos exemplares.
Só em 1988 o livro foi republicado, tendo Roman Polanski em 2002 realizado um filme sobre o mesmo. Ambos intitulados “O pianista”.



Jorge P.G. 17-08-2006


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terça-feira, agosto 15, 2006

MÚSICA A QUALQUER HORA

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30 rádios (cria serem apenas 25), criadas paciente e devotadamente ao longo de uns meses em 2005, estavam guardadas e votadas ao involuntário esquecimento desde que me lancei neste mundo admirável da blogosfera.
Elas foram inseparáveis companheiras de tantas madrugadas.
Dos clássicos ao jazz, 30 rádios sempre hão-de tocar alguns sons que agradem.
É só procurar com a mesma paciência com que as criei.
Então, decidi criar um novo blogue apenas dedicado à divulgação da arte musical, de quem a escreve e dos que a interpretam.
De ouvidos limpos se escuta a boa música. Que as minhas cotonetes vos façam ouvir mais e melhor.
São estes os simples propósitos do "Lugar ao Som".

OUÇAM BEM !


O autor: Jorge G.



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